Quase 90% dos conteúdos virais de saúde são falsos

Levantamento da Lupa analisou 764 materiais e identificou 667 publicações com informações inverídicas

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Quase 90% dos conteúdos virais de saúde são falsos
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Informações falsas sobre saúde continuam alcançando milhares de pessoas na internet e, em muitos casos, utilizam argumentos que simulam respaldo científico. Um levantamento da Agência Lupa mostra a dimensão do problema: 87,3% dos conteúdos virais sobre saúde analisados pela entidade entre março de 2017 e junho de 2026 eram falsos.

O estudo faz parte do relatório Raio-X da Desinformação em Saúde, elaborado com apoio da Afya. Dos 764 materiais analisados, 667 foram classificados como inverídicos. A média corresponde a quase 72 conteúdos falsos por ano, ou aproximadamente seis por mês.

Pandemia mudou a escala da desinformação

A circulação de informações falsas aumentou de forma expressiva durante a pandemia de covid-19. Entre 2020 e 2021, a Lupa checou 452 conteúdos virais sobre saúde, cerca de dez vezes mais do que nos três anos anteriores.

Embora a crise sanitária tenha ampliado o alcance desse tipo de conteúdo, as estratégias utilizadas já eram identificadas antes da pandemia. Entre elas estão promessas de cura, explicações simplificadas para problemas complexos e o uso da imagem ou da suposta autoridade de profissionais e instituições da área médica.

Para Cristina Tardáguila, fundadora da Agência Lupa, um dos mecanismos utilizados é justamente a apropriação da linguagem associada à ciência e aos profissionais de saúde para conferir aparência de legitimidade às informações falsas.

Falsa autoridade é uma das principais estratégias

O levantamento identificou diferentes formas utilizadas para tornar os conteúdos enganosos mais convincentes.

A falsa autoridade médica ou científica apareceu em 21,6% dos casos. O uso do medo e de linguagem alarmista representou 17%, enquanto a distorção de estudos e dados correspondeu a 15,7%.

Outra estratégia frequente foi apresentar soluções simples para problemas complexos, identificada em 12,6% das publicações analisadas.

Os dados mostram que a desinformação não depende apenas de uma afirmação falsa. A forma como a mensagem é apresentada também pode ser usada para aumentar sua credibilidade e estimular o compartilhamento.

Covid-19 e tratamentos estão entre os temas mais citados

Ao longo dos nove anos analisados, a covid-19 apareceu em 61% das checagens relacionadas à saúde. Na sequência estão conteúdos sobre tratamentos, cura e prevenção, com 34%, e alimentos, bebidas e nutrição, com 24%.

Os percentuais podem se sobrepor quando uma mesma publicação aborda mais de um assunto.

A desinformação também passou a explorar diferentes doenças e tratamentos depois da pandemia, mantendo como característica a apresentação de soluções sem comprovação ou a distorção de informações científicas.

Conteúdo falso sobre vacinas permanece

As vacinas continuam entre os principais alvos da desinformação. Antes da pandemia, publicações sobre imunizantes representavam 9,1% das checagens de saúde da Lupa.

Durante a emergência sanitária, a participação subiu para 33,2% e chegou a 38,9% entre 2022 e 2024. Entre 2025 e junho de 2026, houve redução para 20%, mas o índice permaneceu acima do dobro do registrado antes da pandemia.

Das 244 alegações sobre vacinas analisadas durante todo o período, 212 foram classificadas como falsas, o equivalente a 86,9%.

WhatsApp aparece em mais de 70% das checagens

Entre 498 verificações consideradas na análise sobre os canais de circulação, o WhatsApp foi a plataforma mais frequentemente associada aos conteúdos, aparecendo em mais de 70% dos casos.

O Facebook ficou na sequência, com 126 registros (25,3%), enquanto o Instagram apareceu em 35 (7%).

A Lupa faz uma ressalva importante: os números não significam que o WhatsApp seja a origem das informações falsas ou que concentre toda a desinformação sobre saúde na internet.

A própria agência recebe pedidos de checagem por meio de um canal no aplicativo. Isso pode aumentar a quantidade de conteúdos identificados na plataforma. Além disso, uma mesma publicação pode circular por diferentes redes antes de chegar ao público.

Imagem de pessoas conhecidas também é utilizada

O levantamento identificou pelo menos 142 conteúdos que mencionavam figuras públicas, entre elas Jair Bolsonaro, Bill Gates, Drauzio Varella, João Doria e Luiz Inácio Lula da Silva.

A presença desses nomes, entretanto, não significa que tenham criado, divulgado ou apoiado as informações falsas. Segundo a Lupa, terceiros podem utilizar a reputação de personalidades conhecidas para dar aparência de credibilidade a conteúdos enganosos.

O cenário reforça a necessidade de verificar a origem de mensagens, vídeos e imagens antes de compartilhá-los, principalmente quando envolvem tratamentos, vacinas ou promessas de cura.

A desinformação em saúde pode influenciar decisões relacionadas à prevenção e ao tratamento de doenças. Por isso, informações encontradas nas redes sociais não devem substituir a orientação de profissionais de saúde

Fonte: Agência Brasil

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