Chef transforma comida de hospital em afeto e memória
Em Salvador, refeições personalizadas resgatam lembranças familiares e ajudam a tornar a internação mais acolhedora

Uma refeição preparada dentro de um hospital pode carregar muito mais do que nutrientes. Em Salvador, o Hospital Casa de Retiro São Francisco (HCRSF) utiliza sabores, preferências e lembranças familiares para tornar a alimentação parte do acolhimento aos pacientes.
A proposta reúne as equipes de gastronomia e nutrição. Os cardápios seguem as condições clínicas de cada pessoa, mas podem receber adaptações conforme gostos, restrições e referências alimentares.
Chef premiado comanda a cozinha
O trabalho é liderado pelo chef Jonatas Bomfim, de 34 anos. Formado em Gastronomia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), ele venceu a última edição do Panela de Bairro, concurso gastronômico promovido pela Rede Bahia em comemoração aos 80 anos do Senac.
Antes de chegar à cozinha do hospital, Jonatas atuou no setor administrativo de unidades públicas e privadas de saúde. A experiência ajudou a aproximá-lo da rotina hospitalar e de uma visão de assistência que vai além dos procedimentos clínicos.
Receita premiada tem história de família
No concurso, o chef conquistou o primeiro lugar com o prato “Terra e Salinas”, preparado com redução de moqueca de chumbinho, farofa d’água e carne de sertão.
A receita tem ligação direta com as origens familiares de Jonatas, em Salinas da Margarida, no Recôncavo Baiano, e Terra Nova, no Portal do Sertão. Memória, pertencimento e território também estão presentes no trabalho desenvolvido pelo chef no hospital.
“A gastronomia hospitalar pode ser humanizada: conhecer o que o paciente gosta, sua história alimentar e o que é possível oferecer dentro do plano nutricional ajuda a tornar a refeição parte da experiência de recuperação e acolhimento”, afirma Jonatas.
Um prato especial para um aniversário
No HCRSF, a alimentação integra o conceito de ambiência terapêutica adotado pela instituição. A proposta envolve assistência especializada, humanização, convivência, contato com a natureza e bem-estar.
Um episódio recente mostrou como a comida pode assumir esse papel. Um paciente passaria o aniversário internado. Depois de conversar com ele e conhecer suas preferências, a equipe preparou uma refeição especial para marcar a data.
“Quando ele viu o prato, a alegria era perceptível. Ele disse: ‘eu nunca me senti tão acolhido’. É isso que buscamos: fazer com que a alimentação também seja uma forma de cuidado”, relata o chef.
Sabores que aproximam o paciente de casa
Para Jonatas, determinados alimentos podem despertar lembranças e criar uma conexão emocional com a vida fora do hospital.
“Quantas vezes alguém come alguma coisa e diz: ‘estou me lembrando da comida de mainha’? Quando conseguimos trazer essa memória para o ambiente hospitalar, ajudamos o paciente a se sentir mais próximo de casa”, explica.
A proposta está alinhada ao perfil assistencial do Hospital Casa de Retiro São Francisco, que atua nas áreas de transição de cuidados, reabilitação e cuidados paliativos.
Parte dos pacientes permanece internada por períodos mais longos para recuperar autonomia e funcionalidade antes de voltar para casa. Nos cuidados paliativos, alimentação, conforto e dignidade também fazem parte da assistência.
“Em um hospital de transição, alimentar não é apenas fornecer nutrientes. É também devolver referências de casa, prazer e normalidade. Quando respeitamos a história alimentar de cada paciente, a refeição passa a fazer parte da experiência de cuidado”, afirma o diretor-presidente do HCRSF, dr. Fábio Vilas-Boas.
Para o chef, conhecer a relação de cada paciente com os alimentos é essencial para que a gastronomia cumpra esse papel.
“A comida tem memória. Quando entendemos quem é aquela pessoa, de onde ela veio, o que gosta e o que determinado alimento representa para ela, conseguimos transformar aquele momento. É levar um pouco da casa dela para dentro do hospital.”
Assim, entre avaliações nutricionais, adaptações e preparações personalizadas, a gastronomia ocupa um espaço integrado à rotina do hospital. A refeição passa a reunir necessidades clínicas, conforto, memória e acolhimento.
Fonte: soudabahia.com.br




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