Pieve: o novo capítulo do Vino Nobile de Montepulciano
Entre tradição medieval, terroir e Sangiovese, uma nova classificação revela a riqueza de um dos grandes territórios vinícolas da Toscana.

Por Marco Stallone, CEO da Vinífera Import
Quando o vinho começa no território
Há lugares na Itália em que beber vinho é apenas uma parte da experiência. Em Montepulciano, na Toscana, a taça pode ser o início de uma viagem muito mais profunda.
É nesse contexto que surgem os Vino Nobile di Montepulciano Pieve, uma nova expressão de um vinho histórico que passa a revelar, com ainda mais precisão, os territórios que formam essa denominação.
Para quem ama vinho italiano, trata-se de uma descoberta particularmente fascinante. Os Pieve ainda são raros no Brasil, mas carregam uma proposta capaz de despertar a curiosidade de qualquer apaixonado pela cultura do vinho.
Uma palavra que atravessou os séculos
Para entender o conceito, precisamos voltar à Itália medieval.
A Pieve era uma igreja de referência em torno da qual diferentes comunidades se organizavam. Com o passar do tempo, o termo também passou a designar o território relacionado a essas comunidades.
Montepulciano recuperou essa antiga divisão territorial e reconheceu 12 Pievi, cada uma com características próprias de solo, altitude, exposição e microclima.
É uma forma de olhar para o vinho que considero especialmente interessante porque nos convida a sair da ideia de uma denominação como algo homogêneo.
Cada lugar tem sua personalidade. E o vinho pode ser justamente a maneira mais elegante de expressá-la.
O território ganha protagonismo
A filosofia dos Pieve aproxima Montepulciano de uma tradição muito valorizada nos grandes vinhos europeus: a compreensão de que a identidade de uma garrafa começa muito antes da adega.
Solo, altitude, exposição solar e microclima deixam de ser apenas informações técnicas e passam a fazer parte da narrativa do vinho.
As regras também são rigorosas. O Pieve deve ter no mínimo 85% de Sangiovese, chamada localmente de Prugnolo Gentile, e ser elaborado a partir de vinhedos com pelo menos 15 anos.
A produção é limitada e o vinho precisa cumprir três anos de maturação.
São exigências que reforçam uma característica que admiro profundamente na cultura italiana: a capacidade de transformar tradição em identidade sem abandonar a evolução.

Uma novidade com raízes antigas
Existe uma bela contradição na história dos Pieve.
A primeira safra é a 2021, lançada em 2025. Ou seja, estamos diante de uma novidade que nasce justamente da recuperação de uma geografia histórica.
É assim que a Itália frequentemente nos surpreende.
Em vez de romper com o passado para criar algo novo, recupera suas raízes, reorganiza seus conhecimentos e encontra uma maneira contemporânea de apresentá-los ao mundo.
O resultado é uma nova leitura do Vino Nobile di Montepulciano.
Para descobrir na própria Toscana
Quem estiver viajando pela Toscana e passar por Montepulciano deveria reservar um momento para conhecer essa novidade.
Uma das experiências possíveis está na Vecchia Cantina di Montepulciano, onde podem ser degustadas algumas dessas raridades, comercializadas sob a marca Cantina del Redi.
Mais do que uma degustação, é uma oportunidade de compreender como território, tradição e vinho podem conversar dentro da mesma taça.
A Itália que cabe em uma garrafa
Talvez seja essa a maior beleza do vinho italiano.
Uma garrafa pode carregar muito mais do que uma safra, uma variedade de uva ou um método de produção. Pode carregar uma paisagem, uma comunidade, uma tradição e séculos de história.
Os Pieve de Montepulciano nos lembram disso.
Conhecer o vinho italiano é também conhecer a Itália. É caminhar por seus territórios, compreender suas comunidades, reconhecer suas tradições e perceber que cada garrafa pode contar uma história diferente.
E quando essa história começa em uma antiga pieve medieval e termina diante de uma taça de Sangiovese na Toscana, o vinho deixa de ser apenas uma bebida.
Ele se transforma em experiência.

Marco Stallone – CEO da Vinífera Import




Comentários: