Taxa de rolha e os pequenos gênios da economia
Marco Stallone reflete, com humor e uma boa dose de provocação, sobre a relação entre vinho, restaurantes e a famosa taxa de rolha free

Por Marco Stallone
Ontem fui almoçar com um amigo e queria levar duas garrafas especiais.
Antes de sair de casa, cometi uma ingenuidade imperdoável: liguei para o restaurante, perguntei se poderia levar as garrafas e, chegando lá, ainda fiz questão de pagar a taxa de rolha.
Definitivamente, preciso aprender a ser mais esperto.
Porque o verdadeiro especialista faz diferente: primeiro procura quais restaurantes têm rolha free, chega com a própria garrafa e volta para casa orgulhoso, com a sensação de ter derrotado o sistema.
Alguns já alcançaram um nível superior.
Não levam uma garrafa. Levam três, quatro… praticamente uma pequena distribuidora.
Ocupam a mesa durante horas, consomem pouco, pedem taças, balde, gelo, temperatura correta, abertura das garrafas e serviço dos garçons.
No final, fazem as contas e comemoram:
“Não paguei rolha!”
É realmente uma operação financeira de altíssima complexidade.
E existe um personagem secundário nessa história
Existe apenas um personagem secundário nessa história: o restaurante.
Ele entra com o imóvel, a mesa, as cadeiras, o ar-condicionado, a energia, as taças, o gelo, a lavagem, os funcionários, os impostos e o serviço.
O nosso investidor entra com quatro garrafas e a sede.
Parece justo.
Talvez tenhamos esquecido uma coisa muito simples: quando sentamos em um restaurante, estamos, de certa maneira, alugando temporariamente um espaço.
Ninguém nos apresenta uma fatura pelo aluguel da cadeira porque o restaurante recupera seus custos por meio do que consumimos.
A mesa não é gratuita.
O garçom não é gratuito.
A taça não é gratuita.
O ar-condicionado não funciona movido pela amizade.
E o gelo, até onde sei, ainda não começou a cair gratuitamente do teto.
Afinal, por que a taxa de rolha incomoda tanto?
Por isso, acho especialmente divertida a indignação de quem leva três ou quatro garrafas, ocupa uma mesa durante horas, reduz o consumo do estabelecimento e depois descobre, estarrecido, que existe uma taxa de rolha.
“Como assim, tenho que pagar?”
Sim. É uma descoberta realmente traumática: o restaurante pretende ganhar dinheiro com o restaurante.
Quanto à rolha free, não vejo problema algum.
Se o restaurante decidiu oferecer essa cortesia ou utilizá-la como estratégia comercial, ótimo. Cada empresário conhece seus números e sabe o que está fazendo.
Só acho curioso quando a cortesia de um estabelecimento começa a ser usada para convencer os outros de que cobrar é quase uma afronta aos direitos humanos.
“No restaurante X não cobram!”
Excelente.
No restaurante X também podem decidir oferecer sobremesa, estacionamento ou café.
Continua sendo uma cortesia, não uma nova cláusula da Constituição.
Quando economizar R$ 50 vira uma grande vitória
E existe ainda uma categoria que me diverte particularmente: pessoas de excelente condição financeira, empresários e profissionais muito bem-sucedidos, comemorando heroicamente os R$ 50 ou R$ 100 economizados na rolha.
Curiosamente, quando precisamos dos serviços profissionais deles, nunca encontramos a promoção “honorários free”.
Deve ser uma campanha disponível exclusivamente para restaurantes.
Eu continuo atrasado no tempo.
Quero levar uma garrafa especial?
Ligo antes, peço autorização e pergunto quanto custa a rolha.
Se o restaurante disser que é free, agradeço.
Se cobrar, pago.
E, se achar caro, existe uma solução revolucionária que poucos especialistas descobriram: não levo o vinho.
Afinal, restaurante não é a sala da nossa casa com garçom, taças e ar-condicionado incluídos.
Levar quatro garrafas, ocupar uma mesa por três horas e sair comemorando porque economizou a rolha pode até parecer uma extraordinária vitória financeira.
Só não contem para Warren Buffett.
Ele pode ficar com inveja.
A carapuça e a rolha
E, para terminar, um pequeno aviso: se alguém se incomodar muito com este post, não precisa se justificar nos comentários.
Existe um antigo ditado sobre carapuças que servem perfeitamente, sem necessidade de alfaiate.
Aliás, se alguém terminar a leitura ligeiramente irritado, melhor ainda.
Significa que se reconheceu em algum parágrafo e que este post cumpriu exatamente a sua função.
Não cobro nem taxa de rolha pela provocação.
Essa, excepcionalmente, é free.

Marco Stallone é empresário, importador, CEO da Vinífera Import e um apixonado por vinhos.




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