Por que o vinho brasileiro ainda custa tão caro?

Marco Stallone amplia o debate sobre os preços do vinho no Brasil e questiona se os impostos explicam toda a diferença.

Por que o vinho brasileiro ainda custa tão caro?
Marco Stallone – CEO da Vinífera Import. – Foto: Wilton Matos

Por Marco Stallone

Os argumentos apresentados são muito interessantes e, na minha opinião, muito bem elaborados. Eles ajudam a explicar por que o vinho chega tão caro ao consumidor brasileiro.

Como destacado por Ana Leal, do Notícias de Vinho, a formação do preço do vinho importado sofre pressão de vários fatores. Entre eles estão o câmbio, a cascata tributária, a burocracia, as diferenças de ICMS entre os estados e as margens acumuladas ao longo da cadeia.

Também entram nessa conta os custos de importação e distribuição. Uma garrafa que sai da Europa por determinado valor pode chegar ao consumidor brasileiro muito mais cara depois de passar por importador, distribuidor, loja ou restaurante.

Outro ponto levantado por Ana é o Imposto Seletivo, previsto para entrar em vigor em 2027. A alíquota ainda não havia sido definida, mas o novo tributo poderá afetar novamente a formação dos preços.

Antes de qualquer coisa, quero parabenizar a autora por tratar um tema complexo de maneira séria e aprofundada.

Os impostos explicam tudo?

Gostaria, porém, de acrescentar algumas considerações pessoais.

Acredito que seja fundamental separar completamente os impostos que incidem sobre a venda e o consumo do vinho dos custos e tributos relacionados à atividade da empresa que o produz.

São duas coisas diferentes.

É verdade que a tributação e os custos de importação ajudam a explicar o preço final de um vinho estrangeiro no Brasil.

Mas, na minha opinião, eles não respondem sozinhos a uma outra pergunta:

Por que determinados vinhos brasileiros, comprados diretamente da vinícola, também apresentam preços muito superiores aos de produtos europeus equivalentes?

É nesse ponto que acredito que precisamos olhar também para os custos de produção, a escala e a organização da cadeia brasileira.

O exemplo da Itália

É verdade que, na Itália, o vinho tem alíquota de accisa (imposto especial sobre o consumo) igual a zero e, na comercialização, incide principalmente o IVA.

Mas isso não significa absolutamente que uma vinícola italiana trabalhe em um paraíso fiscal ou tenha necessariamente custos menores do que uma brasileira.

Basta começar pelo custo da mão de obra.

Se convertermos para reais os salários, encargos sociais e o custo total de um funcionário para uma empresa italiana, chegamos facilmente a valores várias vezes superiores aos brasileiros.

A isso devemos acrescentar tributação sobre a empresa, custos de energia, previdenciários, administrativos, ambientais, segurança do trabalho etc.

No Brasil, além disso, muitas pequenas empresas podem utilizar regimes tributários favorecidos, como o Simples Nacional.

Portanto, a pergunta que eu faria não é simplesmente “por que os italianos pagam menos impostos?”, mas outra:

Como muitas vinícolas italianas, mesmo suportando custos elevados, conseguem produzir vinhos a preços tão competitivos?

Na minha opinião, uma parte importante da resposta está na capacidade de trabalhar em conjunto e gerar economia de escala.

Escala faz diferença

A Itália construiu em torno do vinho um sistema composto por Consórcios de Tutela, cooperativas, associações, grupos de produtores e estruturas compartilhadas.

Isso permite concentrar volumes e aumentar enormemente o poder de negociação na compra de garrafas, rolhas, caixas, equipamentos, serviços, logística, tecnologia e consultoria.

Uma coisa é comprar 10 mil garrafas vazias.

Outra completamente diferente é negociar 5, 10 ou 30 milhões de garrafas.

O custo unitário pode mudar radicalmente.

Existe ainda outro fator fundamental: a especialização territorial.

Nas regiões do Prosecco, grande parte da cadeia está organizada em torno da Glera e da produção de espumantes.

Em Montalcino, em torno da Sangiovese e do Brunello. No Chianti, novamente a Sangiovese.

Em determinadas áreas da Campânia, Aglianico, Falanghina e outras variedades historicamente adaptadas àquele território.

Isso significa décadas de experiência, equipamentos, fornecedores, profissionais e serviços especializados em torno de determinadas produções.

Especialização também reduz custos

No Brasil, vejo com certa frequência produtores individuais tentando produzir simultaneamente muitos estilos de vinho e trabalhar com diversas variedades.

Isso ocorre mesmo quando o próprio território demonstra uma vocação particularmente forte, por exemplo, para espumantes.

Essa dispersão inevitavelmente pode aumentar os custos e reduzir a competitividade.

Existe finalmente um aspecto que, como importador, me chama particularmente a atenção.

Um vinho europeu, antes de chegar ao mercado brasileiro, precisa atravessar o Atlântico e suportar frete internacional, seguro, porto, desembaraço aduaneiro, análises, burocracia e uma pesada estrutura de impostos e custos de importação.

E, apesar de tudo isso, em alguns casos ele consegue continuar competitivo até mesmo em relação a vinhos brasileiros comprados diretamente na vinícola.

O consumidor compara cadeias diferentes

O consumidor final dificilmente percebe esse fenômeno porque acaba comparando duas cadeias comerciais completamente diferentes.

Ele pode comprar um vinho brasileiro diretamente do produtor por R$ 150.

Já um vinho importado que encontra por R$ 150 ou R$ 200 em um restaurante talvez tenha saído do importador por R$ 50 ou R$ 60.

Depois pode passar pelo distribuidor, pela loja ou adega e finalmente pelo restaurante. É natural que cada etapa tenha seus custos e sua margem.

Portanto, para avaliar realmente a competitividade, deveríamos comparar vinícola com vinícola, ou seja, o preço na origem.

E é exatamente aí que, pessoalmente, faço uma pergunta:

Se na Itália consigo comprar diretamente de uma vinícola determinado vinho por aproximadamente € 5, algo em torno de R$ 30, como é possível que no Brasil um vinho que considero de nível comparável, também comprado diretamente do produtor, possa custar R$ 120 ou R$ 150?

Responder simplesmente “porque no Brasil existem mais impostos” não me parece suficiente para explicar uma diferença dessa dimensão.

Principalmente porque aquele vinho italiano, para chegar ao Brasil, ainda terá que suportar uma quantidade considerável de custos e tributos adicionais.

Onde está a diferença?

Acredito, portanto, que uma parte importante dessa diferença deva ser procurada em outros fatores.

Economia de escala, união entre produtores, especialização territorial, poder de negociação com fornecedores, organização da cadeia produtiva e capacidade de trabalhar em conjunto.

Naturalmente, esta é uma opinião pessoal, construída também a partir da experiência cotidiana trabalhando com produtores e vinhos dos dois países.

Talvez a principal lição que possamos tirar do modelo italiano não seja simplesmente que “na Itália se pagam menos impostos”.

A verdadeira diferença talvez esteja em outra coisa: no mundo do vinho, trabalhar em conjunto e ganhar escala pode custar muito menos do que cada produtor tentar fazer tudo sozinho.

O exemplo dos queijos

Poucos sabem que eu também trabalho com importação de alimentos.

Meu sócio é um grande produtor de queijos no Brasil e, conversando com ele sobre esse assunto, ele concorda 100% com essa análise sobre o vinho, porque no setor de queijos acontece praticamente a mesma coisa.

Também existe uma enorme dificuldade de ganhar escala, organizar a cadeia produtiva e alcançar competitividade internacional.

Tanto que muitos queijos brasileiros conseguem manter preços competitivos no mercado interno graças também a incentivos fiscais, mas encontram enorme dificuldade quando precisam competir no mercado de exportação.

Enquanto isso, os queijos importados chegam ao Brasil carregando custos de logística internacional, impostos de importação, burocracia e distribuição e, mesmo assim, muitas vezes conseguem ser competitivos.

Ou seja, não parece ser um problema exclusivo do vinho.

Talvez seja um problema estrutural de competitividade de diversos setores da produção brasileira: pouca escala, pouca integração entre produtores e custos elevados justamente pela dificuldade de trabalhar em conjunto.

Marco Stallone é importador e distribuidor de vinhos e CEO da Vinífera Import

Comentários:

Ao enviar esse comentário você concorda com nossa Política de Privacidade.

Favicon Só na Bahia
Resumo das Políticas

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.